FLAVIA BERTINATO – JARDIM DAS DELÍCIAS – SET 18


Flores&FundoAzul

FLAVIA BERTINATO
SET-OUT 18
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DuplaFlores

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FrenteGaleria_2

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Geral_Fundo

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Geral_Meio

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ParedeAzul&Jardim

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Sublimação

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Sublimação_3

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NaEstufa4

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NaEstufa2

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Amante_2

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Amante_Detalhe

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Flor&FundoAzul

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JARDIM DAS DELÍCIAS

Exposição individual – Flavia Bertinato

Em sua segunda exposição individual na Celma Albuquerque Galeria de Arte, Flávia Bertinato apresenta uma seleção de trabalhos heterogêneos, abarcando fotografias, desenhos, pinturas e uma instalação. A exposição “Jardim das Delícias” parte de elementos arquitetônicos já existentes no espaço físico, a saber, vitrine, vidraças e jardim, como referências para o processo de criação de obras recentes e na mediação com outras produções que também participam da exposição e que marcam momentos diferentes do percurso da artista.

A exposição “Jardim das Delícias” estabelece conexões com um dispositivo que se se aproximaria a uma estufa, arquitetura que no século XIX, época de sua maior difusão no tecido social, foi muitas vezes associada às experiências libidinosas. Nos escritos do filósofo Walter Benjamin o espaço da estufa é apresentado como sendo o “espaço de sonho”, onde se configuram novas relações sociais, em meio a itinerários e encontros públicos até então desconhecidos. Para historiadores da vida privada, a estufa não somente atribuía status à arquitetura burguesa do começo da modernidade, como, também, favorecia a intimidade dos membros familiares sem a vigilância que operava no interior do ambiente doméstico.

Em “Jardim das delícias” a artista traz um repertório de imagens que remetem a esfera de intimidades, seja nas adoções de recortes fotográficos, temas abordados ou no tipo de tratamento com a pintura das paredes do espaço, além de fazer com que as características do jardim na área externa da Celma Albuquerque Galeria de Arte se estendam para o interior do espaço expositivo.

Neste exercício, Flávia Bertinato problematiza noções em torno da esfera pública versus esfera privada e disseca um vocabulário gestual e simbólico da observação do motivo corporal e floral: superfícies, volumes, texturas, manchas, sulcos, cavidades, fendas e gestos.

Na montagem fotográfica “Jardim das Delícias” (I), 2018, há um jogo de inter-relações entre os seus dois elementos estruturais: um luminoso em neon e uma fotografia. Respectivamente, estes elementos reportam-se à pintura de Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas, 1490-1500, e à reprodução da reprodução da pintura de Édouard Manet, Na Estufa, 1879. Tratam-se de duas citações extraídas não   diretamente das obras destes dois artistas amplamente conhecidos, mas na vaga lembrança delas. Seja as representações de prazeres e punições que acobertam toda a extensão da tela do artista holandês; seja, a pintura de Manet, localizada numa página gasta de um livro comprado em um sebo, dada como um objeto de circulação de mão em mão. Pois na produção de “Jardim das Delícias” (I), interessa à artista menos as referências localizadas nas salas de acervos dos museus as quais pertencem e, mais, a aparição no contexto da própria experiência mundana.

A pintura de Manet, que assume a linguagem fotográfica em “Jardim das Delícias” de Flávia Bertinato, catalisa experiências de produções anteriores da artista, concentrando a atenção na carga simbólica nas mãos do casal. Dispostas na região central da superfície, tais mãos recebem uma luminosidade acentuada, se comparadas às áreas verdes das pinceladas que proliferam por toda extensão da obra. A questão aqui não é exclusivamente a habilidade de Manet na representação destas mãos, mas o lidar com a potência descritiva de suas poses e fazer deste, algo notável: uma ação retida.

Outra característica presente ainda em “Jardim das Delícias” é a relação que se estabelece com o espectador, pontuada a partir de dois modus operandi: o tema (um encontro de amantes ensimesmados, dispensando qualquer interação com o externo, devolvendo ao espectador o lugar de voyeur diante a cena) e a linguagem fotográfica (que devolve ao espectador o ponto de vista de uma lente fotográfica intrusa, devido a aproximação da cena e ao tipo de enquadramento do assunto no interior do quadro fotográfico).

Cada imagem da série fotográfica “Sublimação” (2014-2017) concentra-se na descrição de minucioso gesto confessional e anônimo. “Sublimação” é uma reflexão em torno do gênero retrato, ao trazer noções de fantasias, desejos e libido na contribuição de diferentes pessoas, que representam um recorte da abrangência social. Não apenas o rosto, mas também o movimento de uma pessoa, fazem parte de seu caráter particular. Neste processo de pesquisa, os participantes das sessões fotográficas manipulam balões, que lhes permitem a liberdade tátil e a experimentação inventiva de plasticidade da superfície. As repetições de gestos são notáveis no decorrer do processo de realização da série. Pode-se dizer que “Sublimação” constitui um levantamento experimental e artístico de um vocabulário de elementos da linguagem corporal afetiva, que se replica entre homens e mulheres. Neste fazer, as fotografias e a performance dos participantes problematizam a noção de subjetividade, socialmente construída e consumida, chamando-nos à atenção para a relação entre o eu e a sociedade.

Importante dizer que o empréstimo do termo sublimação para o título acarreta a apropriação desta noção psicanalítica. Resumidamente, o termo cunhado por Freud, ao longo de sua obra em diversos textos de notória importância, tal como “O Mal-Estar da Civilização” (1930), relaciona o termo à um mecanismo de re-orientação da pulsão sexual para um objeto não sexual.

A instalação “Amante” (2008) é constituída por uma plataforma de madeira que mantêm um conjunto de 22 cortinas em suspensão no espaço expositivo. A reunião destas cortinas forma um espaço retangular que lembra a proporção de escala de uma cama de casal e faz referência aos dormitórios palacianos, muitas vezes compostos por camas envolvidas por uma estrutura de apoio em suas quatro pontas para a inserção de tecidos (four -poster bed), que confeririam privacidade ao seu (s) usufruinte (s). Do interior da obra Amante, é propagada uma sequência de músicas que denota um corpo presente, ao qual o público não tem contato, nem acesso direto. Novamente, a artista lida com a questão de localização do público (o lugar onde o trabalho acontece), correlacionando o movimento de afastamento do sujeito, em relação ao interior da obra, com uma situação mundana diante as relações amorosas. Aqui o sujeito ouvinte e apreciador de Amante é também o corpo testemunha, público e voyeur.

Na exposição Flávia Bertinato apresenta também 20 obras entre pinturas e desenhos da série “Jardim das Delícias” (II) (2017-2018), numa seleção que priorizou incluir momentos diferentes de seu processo de produção. Estes trabalhos à óleo sobre papel, translúcido e de espessura muito fina, remetem à ambiguidade do tema floral, sendo às vezes relacionados aos órgãos reprodutores humanos, dada a intensidade da carga erótica da forma de algumas plantas, assim como a associação com a materialidade dos próprios materiais empregados. Já em outros momentos, estes trabalhos da série remetem à uma investida na exploração de cores, superfície, linhas, espaços e volume, que se articulam em formas menos descritivas em relação ao objeto observado.

A artista reside desde 2013 em Belo Horizonte, tendo realizado na cidade uma mostra individual no Palácio das Artes (2009) e apresentado uma instalação no Museu de Arte da Pampulha, dentro de sua participação no Programa Bolsa Pampulha (2013-2014). Participou ainda de exposições coletivas na Galeria Celma Albuquerque e em espaços alternativos, como o seu espaço doméstico (o próprio quarto) em Ateliê Aberto (2014), e Exposição de Guerrilha (2014), ocorrido em uma casa desabitada. Formada em Bacharelado em Artes Plásticas pela UNESP, 2002, e mestra pela Escola de Comunicações e Artes da USP, 2013, realizou exposições individuais Alarme Falso (Centro Cultural São Paulo, 2004), Última e Primeira Sessão (Centro Universitário Maria Antônia, USP, São Paulo 2005), Solstício (Galeria Virgílio, São Paulo, 2008), Bandida (Galeria Marília Razuk, 2013), Rapunzel (Centro Cultural Banco do Brasil, CCBB Rio de Janeiro, 2015-2016) e Sublimação (Galeria Marília Razuk, São Paulo 2017), entre outras. Em 2015, foi contemplada pelo Prêmio CCBB Contemporâneo, Centro Cultural Banco do Brasil e pelo Programa Mergulho Artístico, Oficina Cultural Oswald de Andrade, São Paulo.