LAURA BELÉM – por que olhamos a natureza num mundo conturbado – SET 18


CONVITE LAURA_QUADRADO

Laura Belém – por que olhamos a natureza num mundo conturbado

It is only when we consider looking to be a technique for survival that we can grasp how looking at plants means becoming immersed in the world of the other, and without intruding. Looking is the reconciliation of divided existence, an exercise in survival manifesting as the searching of the world by the sensory apparatus.[1]

A artista Laura Belém inaugurou a sua primeira exposição individual na Celma Albuquerque Galeria de Arte. Laura ocupa o mezanino e o jardim externo da galeria com trabalhos em diferentes formatos: fotografias, vídeos, desenhos e arte sonora. Todas as obras são inéditas em Belo Horizonte. A exposição fica até 26 de outubro de 2018

O conjunto dos trabalhos da exposição revela uma interação da artista com algum elemento da natureza ou da paisagem urbana, e a criação de novos significados a partir desse encontro.

Reconstrução (2017) é uma série de onze fotografias relacionadas à decisão da prefeitura de Belo Horizonte em cortar um conjunto de árvores centenárias de uma importante avenida do centro da cidade (Bernardo Monteiro), em 2014, devido a instalação de uma praga. O fato mostrou-se controverso e a população local criou o movimento Fica Fícus, que lutava pela permanência das árvores. Ainda assim, muitas árvores foram cortadas, permanecendo no local os seus troncos mortos. As árvores não voltaram a crescer. Para a série Reconstrução (2017), a artista fotografou os troncos decapitados com filme preto e branco e realizou intervenções com cristais e pedras sobre as imagens impressas, que foram então fotografadas a cores para a série final.

Os vídeos Quatro Tempos, Modelagem e Entre as estrelas e seus olhos (todos de 2018 e inéditos) trazem interações com elementos da natureza, percebidos pela artista ao acaso, como a água da chuva que cai sobre uma mesa de madeira (Quatro Tempos), uma folha seca coletada na rua (Modelagem) e a luz do sol através de um papel furado (Entre as estrelas e seus olhos). Esses elementos aparentemente frágeis assumem um potencial poético na ação mínima da artista sobre eles, e ativam o olhar como uma ferramenta de “reconciliação da existência dividida”[2] no mundo atual. Eles convidam a uma pausa e a um novo contato com a realidade circundante, a partir do encontro com coisas banais do cotidiano que podem passar despercebidas. Quatro Tempos conta com uma trilha sonora especialmente composta pela dupla O Grivo.

A série Dança Noturna (2018) traz desenhos feitos com fogo sobre papel japonês pintado de preto. O fogo que fura o papel já no vídeo Entre as estrelas e seus olhos (2018) é usado aqui de uma forma mais abrupta, perfurando o papel em várias direções e gerando formas orgânicas que podem lembrar folhas secas ao vento, aves noturnas, ou simplesmente formas abstratas que se interagem como numa dança.

Já o jardim dos fundos da galeria recebe a obra sonora Jardim de Bolso (2008), criada para uma exposição no Japão e ainda inédita no Brasil. O trabalho traz uma narração em áudio com frases de pensadores e poetas ocidentais e orientais sobre a natureza, mescladas a efeitos sonoros coletados pela artista durante viagem ao Japão.

O título da exposição por que olhamos a natureza num mundo tão conturbado pretende instigar perguntas e reflexões, ao invés de fornecer respostas ao público. Ele foi inspirado pelo texto “Why we look at plants, in a corrupted world”, do escritor chinês Hu Fang.

Mini-bio da artista

Laura Belém cria encontros inesperados que ativam a imaginação do espectador e promovem uma possibilidade de reavaliação de suas relações com o meio circundante e consigo mesmo.

O contexto e as especificidades do local são pontos de partida importantes para o seu processo de criação. Uma vez instalados, seus trabalhos costumam dialogar de modo direto com a paisagem, arquitetura, história ou cultura de um local.

Na sp_arte 2018, a artista foi premiada como uma residência na Delfina Foundation, em Londres. Em 2013, Laura recebeu o Prêmio CNI SESI Marcantonio Vilaça. Exposições individuais incluem: ‘Histórias Curtas’, Galeria Athena Contemporânea, Rio de Janeiro (2016); ‘Ilha Restaurante’, Casa do Baile, Belo Horizonte (2015); ‘Hoje tem Cine’, Sesc Palladium, Belo Horizonte (2015); ‘Anekdota’, Capela do Morumbi, São Paulo (2015); ‘Jardim Secreto ou Passagem do Trópico’, Galerie Virginie Louvet, Paris (2013); ‘The Temple of a Thousand Bells’, York St Mary’s, York (2012); ‘A Outra Paisagem’, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2011).

Exposições coletivas recentes incluem:

Desde o apego: memória e gesto, Projeto Fidalga, São Paulo (2018); ‘Tempo Presente’, Espaço Cultural Porto Seguro, São Paulo (2017); ‘Permissão para falar’, Galeria Athena Contemporânea, Rio de Janeiro (2017); ‘A spear, a spike, a point, a nail, a drip, a drop, the end of the tale’, Ellen de Bruijne Projects, Amsterdam (2016); ‘Transparência e Reflexo’, MuBE Museu Brasileiro da Escultura, São Paulo (2016); ‘O Espírito de cada época’, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto (2015); ‘Frestas Trienal de Artes: o que seria do mundo sem as coisas que não existem?’, Museu da Estrada de Ferro Sorocabana, Sorocaba (2014); ‘Limited Visibility’, CAM Raleigh Contemporary Art Museum, Raleigh (2014); ‘Cruzamentos: Contemporary Art in Brazil’, Wexner Center for the Arts, Columbus (2014); ‘Amor e ódio a Lygia Clark’, Zacheta National Gallery of Art, Varsóvia (2013-14).

Seus trabalhos fazem parte das coleções CIFO – Cisneros Fontanals Art Foundation, Miami; SF MOMA, São Francisco; Museu da Cidade de São Paulo, São Paulo; MARGS Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre; Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, dentre outras.

[1] Hu Fang. Why we look at plants, in a corrupted world. In: Ex-flux journal #65 SUPERCOMMUNITY – may-august 2015.

[2] Idem.