CLAUDIA JAGUARIBE E MARIANNITA LUZZATI – NATURA – MARÇO 2020


Natura - Casa Albuquerque (1)
Natura - Casa Albuquerque (1)

A mobilidade é uma das marcas da vida contemporânea. Alguns percorrem distâncias consideráveis, diariamente, para trabalhar; muitos, sempre que possível, saem de onde quer que estejam em busca de novos estímulos sensoriais, novos ares, uma nova paisagem.

Entre estas idas e vindas, o entorno denuncia o deslocamento e atesta em que medida a ocupação humana – corriqueira a ponto de raramente nos surpreender – se faz presente no no espaço.

Muito antes de nossa intervenção no planeta, porém, espécies de plantas e animais também mantiveram constante movimento em razão de mudanças climáticas, distúrbios naturais e processos de desenvolvimento. Nossa existência se deu, e ainda se dá, em conformidade com as possibilidades que a natureza oferece.

Indivíduos e natureza são, simultaneamente, testemunhas e agentes das incontáveis transformações que nos afetam a todo o tempo.

Tais transformações têm impactos significativos na paisagem, objeto de pesquisa tanto de Claudia quanto de Mariannita.

Vista à distância, transformada em sonho de consumo de férias ou refúgio de final de semana, a paisagem se faz cotidiano por meio da presença dos jardins, aqui considerados como manifestações do nosso desejo de presença em um lugar ao qual sabemos pertencer, mas que não conseguimos deixar de modificar.

O encontro entre Claudia e Mariannita, entre fotografias e pinturas, entre linguagens e técnicas, traz à tona perspectivas distintas e complementares sobre estas e outras questões adjacentes.

Sobre Claudia Jaguaribe

As obras apresentadas são parte de uma pesquisa que explora a natureza e a cultura no contexto do jardim. Historicamente, os jardins são manifestações físicas da cultura, dos encontros de valores de determinada sociedade, expressões da forma como entendemos e nos relacionamos com a natureza.

Pela ótica do jardim modernista, Claudia se dedica a pensar e produzir trabalhos que falam sobre a natureza brasileira, sobre o resgate que o contato com esse ambiente pode proporcionar em face da virtualização das relações e experiências atuais.

As imagens que compõem as obras foram feitas em diferentes locais – Inhotim/ Brumadinho, MG; Vila Elisa/Sabará, MG; Sitio de Burle Marx, RJ; Aterro do Flamengo, RJ; e nos Jardins, SP – e representam uma síntese de jardins diversos, com interferências de planos urbanos, calçadas, muros e outros detalhes, numa migração de espécies e reconfiguração das possibilidades.

A série Confluence leva a fotografia para a tridimensionalidade, dando seguimento à revisão da relação com a natureza proposta pela artista; nela estão representados os rios Tocantins, Paraná, Solimões e Iguaçu.

Formada em história da arte, artes plásticas e fotografia, Claudia desenvolve um trabalho atento às práticas multifacetadas e à diversidade da fotografia contemporânea. Sua produção se caracteriza por uma intensa pesquisa plástica que utiliza diferentes mídias, como fotografia, vídeo, internet e instalações. Na fotografia, trabalha com variados formatos e meios de produção, desde a prática fotográfica em estúdio até fotos documentais posteriormente trabalhadas, numa pesquisa sobre a materialidade da imagem que questiona a própria natureza da fotografia.

Sobre Mariannita Luzzati

Os trabalhos aqui expostos foram concebidos por Luzzati a partir do estudo do fenômeno da vegetação migrante: uma fronteira que marcou caminhos físicos e espirituais traçados pelo homem em nosso planeta, definindo a fisionomia geológica de diferentes civilizações ao longo dos tempos.

A paisagem brasileira, ponto central da pesquisa artística de Mariannita, é conhecida por sua extraordinária diversidade. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro, criado pelo príncipe Dom João de Bragança, em 1811, para aclimatar plantas trazidas do leste da Índia para o Brasil, é emblemático neste sentido. A criação deste imenso parque botânico mudou o clima e a paisagem da cidade e foi fundamental para criar um ambiente para as espécies que coexistem com as florestas tropicais circundantes.

As migrações transformaram e retransformaram radicalmente situações e contextos preexistentes. Pesquisas paleobotânicas desenvolvidas a partir de macrofósseis e diagramas de pólen indicam que, muito antes de qualquer intervenção humana, as espécies de plantas já haviam migrado devido a mudanças climáticas, distúrbios naturais e processos de desenvolvimento. Os efeitos da intervenção humana nos ecossistemas florestais, no entanto, têm aumentado progressivamente devido ao crescimento populacional e à diversificação das atividades humanas.

Em Natura a artista apresenta uma plataforma para reflexão sobre o Brasil e sobre as possibilidades de reconexão do homem com a natureza em seu estado mais puro.

Vivendo e produzindo em Londres desde a década de 1990, Mariannita Luzzati nunca se distanciou do Brasil, cujas paisagens seguem sendo exploradas em seus trabalhos de pintura, gravação e desenho. A pesquisa cromática e uma representação que não busca clareza objetiva, com limites pouco definidos entre os elementos das imagens retratadas, são frequentes em seu trabalho que permite virem à tona, com sutileza, questões ambientais e sociais, tão em voga e urgentes em nosso tempo.